Sobre os direitos deste livro
Domínio público — uso livre
Este livro é de domínio público no Brasil: o autor faleceu há mais de 70 anos e o texto pode ser copiado, distribuído e usado livremente, sem pedir permissão a ninguém.
Você pode: ler, baixar e compartilhar à vontade · citar em estudos e trabalhos, com a devida atribuição ao autor · usar como base para adaptações e traduções, sem obrigação de atribuição à edição digital.
O que pedimos: ao divulgar o texto integral, mencione o autor e o projeto Marginalia · se encontrar erros nesta edição, escreva para [email protected] · se o projeto lhe foi útil, considere uma doação: [email protected].
Marginalia é um projeto colaborativo e gratuito, mantido por voluntários que acreditam que livros sérios devem ser acessíveis a todos.
Capítulo I — Óbito do autor
Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar o método inverso: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor.
A segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
Com efeito, morri de uma moléstia grande, depois de muitos anos de uma vida que não foi má, mas também não foi boa — a vida, como se sabe, tem dessas coisas.
Capítulo II — O emplasto
Antes de morrer, quis deixar ao mundo alguma coisa de útil. Inventei um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade.
Na hipótese de morrer antes de completar a obra, deixei instruções minuciosas: o emplasto se chamaria Emplasto Brás Cubas, e seria o remédio das almas aflitas.
Não cheguei a realizá-lo, e a humanidade perdeu uma das suas grandes promessas de conforto. Mas a ideia, como se verá, me acompanhou até o fim — e além.
Capítulo III — A flor da moita
Pois o meu amor foi como esta flor: nasceu na moita, escondido, e quem passava não o via. Virgília — eis o nome — tinha vinte e poucos anos, e eu trinta e tantos; o cálculo das idades não fazia senão agravar a situação.
Olhamo-nos muito tempo, em silêncio, enquanto o resto do mundo fazia o seu ruído habitual. Depois, sem que ninguém soubesse, sem que ninguém visse, a vida tomou outro curso.
E aqui a história se complica, porque o coração tem razões que a razão desconhece — e a minha razão, naquele tempo, ainda não sabia disso.