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Capítulo I
O João Romão, homem de quarenta anos, português, magro e seco, era o dono do cortiço São Romão. Ganhara dinheiro como carregador, depois como dono de uma venda, e agora crescia, devagar, sem pressa, como as coisas dele.
Da venda, via o movimento da estalagem — a lavadeira que chegava, o operário que saía, as crianças correndo entre as casinhas. E calculava, no silêncio da noite, quanto tudo aquilo lhe rendia.
O cortiço acordava cedo, com a gritaria das mulheres e o cheiro de café. Acordava, vestia-se de barulho e suor, e vivia — vivia como só as coisas que têm pressa de viver sabem viver.
Capítulo II
Rita Baiana, mulata de vinte e dois anos, bailava como ninguém. Quando ela dançava, o samba parava para vê-la — o samba e os homens, que se perdiam naquele corpo que não pedia licença para existir.
Jerônimo, o português sério, casado, trabalhador, olhava de longe. E naquele olhar ia se desfazendo, pouco a pouco, a vida que trouxera de Portugal, como se desfaz a névoa da manhã.
Foi assim que o cortiço ganhou mais uma história — dessas que se contam baixinho, atrás das portas, e que o tempo se encarrega de esquecer.